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SAUDADE...

Saudade é uma palavra para a qual não existe tradução em algumas línguas. No inglês mesmo, não tem.

É também um sentimento que às vezes é tão forte que dói, e outras tá lá, incomodando, mas a gente nem sabe direito o que tá sentindo.

Hoje é o Dia da Saudade. Como se precisasse de um dia no calendário para nos lembrar de sentir algo por aqueles amados que estão longe; por aqueles que foram ali, mas voltam já; ou por aqueles que já se foram pro andar de cima e não voltam mais.

De qualquer forma, o dia serve pelo menos para refletir a respeito...

Nani, amiga do peito que está pertinho (graças a Deus!), me mandou uma definição de saudade lindamente posta em palavras pela eterna Clarisse Lispector:

"Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida"

Sodadis docês tudim, visse?!

EPISÓDIO HUMANO

Foi lançado recentemente o livro EPISÓDIO HUMANO, uma coletânea de crônicas de Cecília Meireles. Pode-se até dizer que estas crônicas são quase-inéditas, uma vez que nunca foram editadas em livro algum. No entanto, foram publicadas individualmente no já extinto "O Jornal" no final da década de 20.

A própria Cecília começou a compilação, há mais de 60 anos, juntando até então 20 recortes das 31 crônicas, e chegou a redigir a apresentação. As outras 11 crônicas, que não estavam com ela, foram pesquisadas pelos editores da obra na Biblioteca Nacional. Mas por que só agora? A demora se deve ao fato de sua casa (e consequentemente sua biblioteca) no Cosme Velho ter ficado lacrada por 30 anos devido a uma conturbada disputa familiar.

A obra tem um tom melancólico, até mesmo triste, refletido numa prosa mais poética (característica essencial da autora) do que cotidiana. Os textos espelham um período doloroso da vida de Cecília (a depressão do marido), explicado com suas próprias palavras já na apresentação: “Relendo-os, verifico que ainda me comovem essas páginas. Nelas está minha vida, em toda a sua pureza, numa fase amargurada de construção. Amo essa tristeza conformada da minha disciplina. E, olhando para esse tempo de duras experiências, apenas me restaria murmurar, e a dor têm sempre caminhos mais longos! De modo que um esplendor mágico abre sobre as tragédias um relâmpago. E o coração resiste, pela força do deslumbramento. Hoje, eu apenas falaria, talvez, com menos palavras. Mas é porque, na verdade, já foi usada a minha voz."

Ô quero!
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FULÔ DO MANDACARU


Flor do Mandacaru (Chico César)

Manda, Carú...
Flor de mandacaru pra mim
Que é pra botar no xaxim
Em cima da televisão

Manda, Carú...
Uma flor dessa do sertão
Uma flor de cardo
Pra alegrar meu coração

Só pra guardar de recordação
Do tempo da meninice
Pois de recordar carece
Como uma prece sem fim
Manda, Carú...
Flor de mandacaru pra mim

Pelo correio ou de caminhão
Num barco do São Francisco
Peço que você se apresse
Que a saudade é ruim
Manda, Carú...
Flor de mandacaru pra mim



Para quem não conhece esta aí é a flor do Mandacaru, um cacto característico da região nordestina. Ela é bem grande (seu botão formado é quase do tamanho de uma banana), costuma abrir durante a noite e dura apenas umas 12/24 horas. Diz a crença popular que, ao abrir, ela anuncia a chuva lá no sertão.

Meu pai (cearense dos bons!) tem um lindo Mandacaru - plantado em lugar de honra em sua casa - e o danado vem dando flor, ininterruptamente, desde novembro. Mas só ontem consegui conciliar meu horário corrido com o das flores para poder fotografá-las.
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GREED


You believe in coffee grounds,
tea-cups omens, gambler's chance...
I believe in your eyes dance.

You believe in fairy tales,
dreams and lucky days or ill...
I believe the lies you tell.

You believe in some vague God,
a special Saint who guards you here,
for so much sin, so much prayer.

I believe in cloured hours,
blue and rose, when your delights
are bare for me through sleepless nights.

It's all that I believe, my faith is
so profound, so deep, so true,
That I can only live for you.

by Paul Verlaine

POETRY

"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi:
não soube que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."


No Dia da Poesia,
meu poeta predileto:
NERUDA

Foto:
Luís Lobo Henriques
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AND NOW WHAT?


Lost
Photo by
AdeleS

ONE ART
by Elizabeth Bishop

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
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BOCA FAMINTA


"Quero alguém que coma meu coração.
Uma boca diligente e alheia.
Pretendo oferece-lo, vermelho e afoito, a algum
desconhecido faminto e desprovido de pequenos medos.
Posso imaginar a cena: olhares sequiosos e
cúmplices de um crime de amor.
Depois, os dedos ávidos e longos do desconhecido
sufocariam meus seios fartos de Ofélia, - mais um olhar - e,
obstinado, rasgaria minha pele,
cavando meus ossos com aflição agônica.
Por fim, partiria meu peito ao meio,
arrancando-me o coração e mastigando
com volúpia meus segredos e dores, como um náufrago.
Eu veria Deus!"

Poem also by Ivana Debértolis

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LIVRO DA VEZ - 'JOYFUL NOISE'

Já disse que eu sou bibliotecária???

Acho que sim, né?

Bem... estou na fase final de um projeto que fundiu duas bibliotecas (e minha cuca!!). Com isso, tive que desencaixotar livros e mais livros, catalogá-los e classificá-los. Tem caixa que vai rapindinho, pois os livros são terríveis, nada atraentes. Agora, também tem caixas que demoro horrores, pois acabo achando uns tesouros aqui e alí. Daí já viu, né? Acabo parando tudo pra dar um folheada num... uma lidinha noutro...

Uma preciosidade que achei recentemente foi um livro de poesias para ser lido em voz alta e - pasmem - em dueto!! É isso mesmo!! Lembram quando a gente fazia 'jogral' no colégio??? É bem por aí.

Ilustrado lindamente em grafite por Eric Beddows, JOYFUL NOISE : POEMS FOR TWO VOICES foi escrito por Paul Fleishman. Aliás, este não é o primeiro 'poems for two voices' que Fleishman escreveu. Tem também I AM PHOENIX e BIG TALK.

JOYFUL traz poemas sobre insetos. Cada um mais delicioso que o outro - os poemas, não os insetos!

Por exemplo, tem poema sobre gafanhotos (grasshoppers)... vaga-lumes (fireflies)... mariposas (moths)... cigarras (cicadas)... Mas o meu favorito é o que fala sobre duas traças de livros (book lice), de personalidades - e gostos literários - totalmente diferentes, mas que se apaixonam perdidamente!! É esse que eu transcrevo aqui. À esquerda vem o texto da voz 1 (ele), a direita o da voz 2 (ela) e ao centro o coro do casal.
Divirtam-se!

I was born in a fine
old edition of Schiller*...

While I started life in
a private eye thriller.
We're book lice
who dwell in these
dusty bookshelves.
Later I lodged in
Scott's* works - volume 50...

While I passed my youth
in an Agatha Christie*.
We're book lice attached
despite contrasting pasts.
One day, while in search of
a new place to eat...

He fell down seven shelves
where we happened to meet.
We're book lice who chew
on the bookbinding glue.
We honeymooned in an
old guide book on Greece.
I missed Conan Doyle*,
he pined for Keats*.
We're book lice
fine mates
despite different tastes.
So we set up home
inside Roget's Thesaurus*
Not far from my mysteries,
close to his Horace*.
We're book lice
adoring
despite her/his loud snoring!
And there we've resided,
and there we'll remain,

He nearby his Shakespeare
I near my Spillane*.
We're book-loving
book lice...
plain proof of the fact...
which I'm certain I read
in a book some months back...

That opposites
often are known
to attract!
* NOTAS DA SORA:
  • Friedrich von SCHILLER, filósofo, poeta e historiador alemão do séc. XVIII.
  • Sir Walter SCOTT, novelista e poeta escocês do séc. XVIII.
  • Agatha CHRISTIE, novelista inglesa do séc. XX, criadora dos personagens Hercule Poirot e Miss Marple.
  • Sir Arthur CONAN DOYLE, novelista escocês do séc. XX, criador do personagem Sherlock Holmes.
  • John KEATS, poeta inglês romântico do séc. XIX.
  • Roget's Thesaurus, um dos dicionários mais tradicionais da língua inlgesa.
  • HORACE, poeta romano do séc. I a.c.
  • William SHAKESPEARE, poeta e dramaturgo inglês do séc. XVIII.
  • Mickey SPILLANE, novelista americano do séc. XX, criador dos personagens Capitão América, Capitão Marvel e Tocha Humana.
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EU...

Me apaixonei por Florbela Espanca, no mesmo instante em que ouvi "Fanatisno" cantado por Fagner pela primeira vez. Pra mim, não existe verso que traduza o amor de forma mais profunda:

"Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !"


Florbela é uma poetisa portuguesa romântica... meio introspectiva... até mesmo melancólica . Se não soubesse que ela nasceu em dezembro, juraria que ela era canceriana.
Outro dia, revirando a net atrás de seus poemas, dei de cara com EU... ou deveria dizer 'dei de cara comigo'?

EU..
(TRECHOS)
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Alma de luto sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

GOZO


A língua girava no céu da boca. Girava!
Eram duas bocas, no céu único.
O sexo desprendera-se de sua fundação,
errante imprimia-nos seus traços de cobre.
Eu, ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, elaeu.
A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava.
Consumia-nos em piscina de aniquilamento.
Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e
fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo,
se restituíram à consciência.
O sexo reintegrou-se.
A vida repontou: a vida menor.

Extraído do livro "O amor natural", Editora Record – RJ, 1992, pág. 29.

EPITÁFIO

O nosso querido 'velhinho' tem tantas boas...
Olha a versão dele pra morte.
Dá um bom epitáfio....

"Eu estava dormindo e me acordaram.
E me encontrei, assim,
Num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo um pouco,
Já eram horas de dormir de novo."
'O Morto' by Mário Quintana

QUANDO O AMOR CHAMAR...

Este final de semana, pra mim, foi ótimo!
(Tirando a ressaca, claro!!)
Ontem fui dormir recarregada e leve!!!
Até mesmo com algumas resoluções
fervilhando na kbça e no coração.
Acho q foi pq tivemos várias amostras-grátis de AMOR.
Rsrsrsrs...
Amor entre homem e mulher...
Amor entre amigos...
Amor entre irmãos...
Amor entre mãe e filhos...
Amor dos três tipos: philos, eros, e ágape.
Acordei com as 'baterias' no auge pra começar a semana.
Espero q todos vcs tbm tenham uma óóóótima semana!
Bjs amados....
Sora

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O AMOR
[In: 'The Profet' by Gibran Khalil Gibran]

Quando o amor chamar, aceitem seu chamado,
mesmo que o caminho seja duro, difícil.
E quando suas asas se abrirem,
entreguem-se, mesmo que a espada,
que está ali escondida,
termine provocando ferimentos.

E quando o amor disser algo,
acreditem, mesmo que sua voz destrua seus sonhos,
como o vento do norte devasta os jardins.
Porque o amor glorifica e crucifica.
Faz crescer os ramos, e os poda.
Tritura os homens, até que estejam flexíveis e dóceis.
Os queima em fogo divino,
para que possam converter-se em um pão sagrado,
que será consumido no banquete de Deus.

Entretanto, se tiverem medo,
e quiserem encontrar no amor apenas a paz e o prazer,
melhor que se afastem de sua porta,
e procurem outro mundo,
onde poderão rir mas sem toda alegria,
e poderão chorar mas sem usar todas as lágrimas.
O amor não dá nada e não pede nada além de si mesmo.
O amor não possui nem é possuído - porque ele se basta.
E não tentem dirigir o seu curso:
porque se o amor achar que são dignos,
nele os dirigirá até onde devem chegar.