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A QUEM INTERESSAR POSSA



Photo by Grace_L.

'Eu quero mesmo é um amor.

Pode ser um amor feinho como o da Adélia, bem simplinho, bem básico, bem sem fru-fru. Não precisa ser lindão, mas também não pode ser jururu, não precisa ser de arrasar, não precisa embalagem fina, salto alto. Pode ser amor mesmo pé descalço, despretensioso, que, pra variar, esteja pertinho e jeitoso e, se não estiver, dê jeito de ficar o mais depressa e urgentemente possível.

Um amor de beijar, de amassar, aprazível, anti-derrapante que não solte as tiras, não deforme mas que, por favor, tenha cheiros vários. Um amor pra chamar de rinoceronte, ornitorrinco ou dromedário, um amor que não morra de susto, que não se tranque no armário, que não estaqueie, que não amarele, não fique pasmo, não encrenque e pare de funcionar da noite para o dia, sem garantia ou assistência técnica.

Pode vir com ou sem opcionais, sem adereços, sem rima ou métrica, sem extras e sem bônus de vale-brinde, mas precisa estar em razoável estado de conservação. Muito importante é ser amor pé no chão: chega de platônicos, de fãs, admiradores ou de amor de fantasia. Se você é daqueles que aprecia uma musa inspiradora e epifanias para carregar na lembrança e nos enlevos pro resto da vida, vá procurar outra sílfide, outra ninfa, outra pobre coitada compatível com altares, alturas e símbalos altissonantes. Eu quero um amor pulsante, para beijar de olhos abertos, para tratar da frieira, para ir ao supermercado, para resolver problema, para brigar por mais espaço na rede, para reclamar que desmarcou a página do livro, para passear na feira e ir ao teatro.

Eu quero mesmo é uma amor bem vivo, daqueles férteis, tarados, famintos mas quietinhos, um amor de mãos dadas, de subentendidos e gargalhadas, café bem forte, beijo no pescoço, almoço de domingo, família peculiar. Eu quero um amor de se entregar que não me deixe esperando, não me pegue chorando de tristeza, que não me faça sofrer.

Eu quero um amor sem aspereza, pra viver os dias todos: os muito quentes com gelo e limão, os muitos frios de pijama, chocolate e roupão. Eu quero um amor que faça da gente uma casa um para o outro, que nos torne reciprocamente refúgios contra todo o resto do mundo, um amor pra se abrir, se prescrutar, se invadir e não panicar.

Eu quero um amor de surpresas boas, de confiança, de sofreguidão e de calmaria, um amor pra luz do dia e o mesmo amor para as noites vadias, um amor para enfrentar tudo e todos sempre juntos, com a certeza de que ainda que não sobrasse nada, sobraríamos nós, um pra ser o amor do outro.'



Faço minhas as palavras da Ticcia

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POR QUE VC É ASSIM?


New Beginnings
Photo by
Carpe Icthus.

Texto clonado daqui.

"... como os homens são volúveis, como seus afetos são precários, como seus medos são profundos e os imobilizam. Brado sobre a imaturidade masculina, sua falta de sensibilidade, sua crueldade. Arremato dizendo que os homens em geral merecem cada segundo da dor e da solidão em que estão metidos, porque muito mais que as mulheres, eles têm pavor de se comprometer com alguém real, pavor de mostrar que são vulneráveis, pavor de demonstrar afeto."



60 minutos depois...



Aí... leio a Ticcia, que consegue ver uma possibilidade em tudo isso... um vislumbre de convivência quase que pacífica.


"O que há de mais encantador em alguém são os medos disfarçados, implícitos ou negados, admitidos num ato extremo de cumplicidade e desamparo. Ou os pecados gozosos, dolorosos, gloriosos, mortais, veniais, vergonhosos, claro, confessados e com convite subentendido a partilhar, elaborar, dividir a culpa que deixamos de sentir, rir juntos, aperfeiçoar, aprender requintes e nos absolvermos mutuamente. Ou os vícios inofensivos ou perigosos, ou as inseguranças, ah meu deus, que lindas são as inseguranças, aquelas medidas das potências tão menores e insuspeitas, que nos aproximam e nos deixam reconhecer por trás do personagem metálico e frio. O que há de mais encantador em alguém é sua própria humanidade admitida e compartilhada, sem receio de que o outro faça disso uma arma mortal, mas ao contrário, com o desejo quase descrente de encontrar o eco de um mesmo grito, a sede de uma outra sede igual, o reflexo familiar do outro lado do espelho.

Então vem! Admite... compartilha sua humanidade. Vê em mim o eco do seu grito, o reflexo do seu medo e da sua sede.

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